O Portal
O Portal
Ela acordou. Era só mais um dia, como qualquer outro.
Ficou deitada na cama
durante quase uma hora, reunindo forças para levantar.
Por fim, o fez.
Despiu-se e foi para o banheiro de sua suíte. Quando a
água gelada tocou seu
corpo, ela sentiu um leve choque, como se uma pequena
carga de energia
houvesse penetrado em seu ser. Ensaboava-se com pouca
atenção, evitava
tocar-se. Após o habitual ritual de higiene, enrolou-se
na toalha rápido,
sem fitar por momento algum o espelho. Observar-se a
lembrava sempre de quem
ela era, por isso, ela evitava ao máximo o encontro
consigo mesma.
Escovou os dentes, com olhos baixos, em momento algum
queria fitar-se.
Vestiu-se rápido, como se alguém a espiasse, e dirigiu-
se novamente até a
cozinha. Lá, pegou uma boa xícara de café, algumas
torradas, e voltou ao seu
quarto.
Esse era seu ritual diário. Solitária.
Apesar de ter abandonado a escola, ela passava o dia
inteiro entre seus
livros. Lia e ouvia a Nona Sinfonia o dia todo, ao ponto
dos vizinhos
reclamarem com a síndica do prédio daquela musica chata
tocando o tempo
inteiro.
Ela tinha uma face com traços belos, fortes. Um corpo
arredondado, uma pele
suave, cabelos longos e encaracolados. Seria uma mulher
bonita. Mas ela há
muito havia decidido que não seria mais um corpo físico.
E assim o foi.
Era um fantasma dentro da própria casa. Seus pais nunca
falavam com ela, e
ela, quando por acaso esbarrava com algum deles, quando
ia buscar alguma
comida na cozinha, nem os olhava. Era como se ela
vivesse em um Universo
paralelo.
Nesse Universo, ela era outra pessoa, tinha outra forma,
e era cercada do
Mundo perfeito. E o portal para o nosso universo era sua
cama. Sempre que
levantava da cama, ela estava nesse mundo, tão estranho
para ela. Era como
se ela tivesse nascido naquele mundo paralelo e houvesse
sido raptada por
aquelas pessoas que chamavam-na de filha. Mas no outro
Universo, ela tinha
uma família! Tinha um amor, um sonho, uma vida inteira.
Então, ela passava
horas e horas deitada em sua cama, seu secreto portal de
acesso aquele local
maravilhoso.
Desde pequena ela ia até lá. Os homens que ela amou, as
pessoas que
conheceu, todas estavam disfarçadas por aqui. Quando
menina, essas pessoas
disfarçavam-se de bonecas e ursinhos, mais tarde, essas
amizades e paixões
existiam em nosso mundo como contos, estórias
fantásticas daqueles livros
que ela tanto amava. Mas quando ela os lia,
imediatamente conseguia falar
com aqueles seres do outro Universo, aqueles, seus
iguais, que a
compreendiam.
Mas seus pais não compreendiam isso. Eles não entendiam
porque aquela jovem
tão bela e saudável não queria sair do quarto. E a
forçaram a voltar a
escola. Muito a contra gosto, ela foi. Mas era inútil...
ela chegava na sala
de aula, não ouvia uma palavra do que o professor dizia,
e voltava, tão
calada quanto antes. Nunca era reprovada, lia de mais,
era muito culta, não
precisava das explicações metódicas e medíocres daqueles
professores
cansados e mal pagos. Mas não conversava, não se
socializava.
A conselheira da escola chamou seus pais para uma
conversa. Sua filha era
anti-social. Ela rejeitava totalmente a sociedade,
seus padrões, suas
regras. Isso não era saudável, dizia ela!
Seus pais, já preocupados, levaram a menina a um
psicólogo. Só que ela se
recusava a conversar com ele. Ela não queria dividir seu
Universo com
ninguém, pois sabia que todos aqui eram profanadores, e
que, caso contasse a
alguém sobre seu Universo, ele poderia ser tirado dela,
invadido por
saqueadores, destruído.
Mas a menina não mais agüentava seus pais a
pressionando. Então, começou a
mentir, a dizer que saia com amigos, quando na verdade,
ia para bosques,
praias desertas, acompanhada apenas por seu diário e uma
garrafa de vinho.
Lá ela contava as deliciosas e ardentes paixões vividas
em seu Universo,
tudo aquilo que ela aprendia lá, como o local era
lindo...
Voltava para casa tarde da noite, mas seus pais nem
brigavam, pois pensavam:
ela está se socializando.
Eles estranharam ao serem chamados novamente pela
orientadora da escola. Sua
filha continuava anti-social. Eles se perguntavam
então com quem ela
estaria saindo... e começaram a suspeitar que ela usava
algum tipo de
entorpecente.
Ao chegar em casa, viram que a porta de seu quarto,
estranhamente estava
destrancada. Entraram, mas ela não estava lá. Havia
descido para comprar
cigarros. E seu diário estava a vista dos invasores, que
logo estavam
lendo-o e desvendando os mistérios de seu Universo!
Quando ela chegou e se deparou com seus pais com seu
diário em suas mãos,
todo seu corpo estremeceu. Seu mundo havia sido
profanado! Mas ela nada
disse. Eles lhe deram uma bronca, dizendo que ela estava
delirando, que
estava enlouquecendo, vivendo em um sonho e que ela não
poderia mudar o
mundo, e deveria se ajustar a ele. Deram-lhe um
ultimato! Ou ela se
adaptava, ou eles a forçariam a se adaptar! Em último
caso, utilizariam de
qualquer recurso, até mesmo uma clínica de repouso...
(exatamente oq fizeram comigo qdo acharam tuas
cartas..:P)
Mas ela nada falou. Não gritou, não contestou. Ela já
sabia o que deveria
fazer. Foi até seu templo, seu quarto, e trancou-se. E
enfim decidiu: iria
mudar-se definitivamente para seu Universo, e fecharia
os portais, para que
ninguém pudesse segui-la.
Naquela noite ela se preparou. Despediu-se desse
Universo, deixando um
bilhete aqueles que cuidaram dela durante aqueles longos
anos. E queimou
seus livros, para que ninguém jamais pudesse encontra-la
novamente. Após
isso, queimou seu diário, o único resquício dela mesma
preso a esse mundo.
Deitou-se em sua cama e respirou fundo. Em pouco tempo,
a viagem começara. E
dessa vez seria definitiva. Ela nunca havia feito isso
antes por medo, mas
agora nada mais importava. Fechou seus olhos. E se foi.
No dia seguinte, à tardinha, seus pais já estavam
preocupados. Ela não saíra
do quarto para tomar seu habitual café, nem muito menos
almoçar. Bateram na
porta, mas ela já não estava mais lá. Desesperados,
arrombaram a porta
nenhum vestígio da filha. A cama, ainda desfeita, lá
estava. No canto,
apenas cinzas. Sua prateleira de livros, vazia. Mas onde
estaria ela?
Procuraram no banheiro, até nos armários, mas nada. Ela
havia desaparecido.
Seus pais chamaram a polícia, perguntaram ao porteiro se
ela havia saído
durante a noite, examinaram as fitas de segurança do
prédio... nenhum sinal
dela. Ela havia conseguido... finalmente, estava em seu
Universo, para
sempre!
...
Era só mais um dia, como qualquer outro. Ficou deitada
na cama durante quase
uma hora, curtindo o prazer da preguiça. Por fim,
resolveu levantar-se.
Despiu-se e foi para o banheiro de sua suíte. Quando a
água morna tocou seu
corpo, ela sentiu como se uma leve carícia percorresse
todo seu corpo. Ela
sorriu. Ensaboou-se, quase que fazendo amor consigo
mesma, tocando-se,
amando-se. Ao sair do banho, olhou-se longamente ao
espelho: finalmente, era
ela. Estava liberta. Havia conseguido fugir e seu amado
a esperava na
cozinha.
...
Finalmente, seus pais a encontraram, encostada no último
degrau das
escadarias do prédio. Ela estava imóvel. Eles correram e
a abraçaram, mas
ela não falava uma palavra. Levaram-na para casa, e
percebendo que ela não
recobrava a consciência chamaram uma ambulância. Ela foi
levada a um
hospital. Diagnosticaram algo como colapso nervoso, ou
algo do gênero.
Eles nada entendiam. Aquilo era apenas a casca que ela
precisou deixar. Pois
ela não mais estava ali. Estava fazendo amor nos braços
de sua alma gêmea,
deitada no infinito, observando a beleza e a imensidão
das estrelas. E nunca
mais deixaria aquele lugar. Em fim, ela encontrara a paz.

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