terça-feira, 6 de novembro de 2007

Conto pt I "O Despertar"

"A chuva caia impiedosa la fora. Sentado na porta, ele olhava o céu, o tempo cinza, os pingos que caiam, como se procurasse algo que pudesse explicar. Era um dia frio, sua mente voava, para além da chuva, além das nuvens. Não fazia muito tempo que a conhecera, de certa maneira havia sido tudo muito rápido, e a hora que caiu em si, ja era tarde, havia sido traido por seus pensamentos, havia se deixado levar por um jogo que a muito não entrava. Pensava em como não havia percebido os sinais, os sintomas, em como tudo passara tão desapercebido por si. Ele se levantou, e foi lentamente até o armário, pegou uma garrafa de vinho e uma taça, sabia que o tempo não existia, que é apenas um mecânismo inventado pelo homem, voltou a porta tão vagarosamente quanto havia saido, encheu a taça de vinho e iniciou quase que um ritual, dada a maneira como ele bebia, cada gole como se fosse uma palavra engolida, palavras que seu coração desejava despejar, mas que sua boca insistia em devolver. Aquela altura, esperava um sinal, um sinal que no fundo sabia que poderia não chegar, sabia que desde mais novo, sempre fora assim suas paixões, sabia que a chances de ser correspondido era minima, e ali naquela taça tentava afogar as esperanças que ainda tentavam acender suas tochas. O vento ao fundo soava como uma música, cuja letra era incompreensível aos ouvidos, mas falava pausadamente ao coração, olhou para o vinho, que insistia em terminar, deixou escapar um sorriso no canto da boca, e de súbito deu um pulo, e pois se debaixo da chuva, como se quisesse lavar cada parte do seu corpo, tentando tirar o que estava impregnado nele, um ato em vão, quanto mais permanêcia ali, com a água caindo e escorrendo por seu corpo, mais purificava o que seu coração emanava. A loucura era total, podia sentir o perfume na chuva, o perfume das rosas se refrescando, da natureza se renovando, do novo nascendo, podia sentir o perfume da vida. Estava entregue, em sua mente apenas a cena, imaginava a próxima vez que seus olhos encontrassem os dela, mil palavras passariam por eles, mas sua boca apenas soletraria as primeiras coisas que viessem, e a desculpa que sempre se dava era a mesma, não por falta do que dizer, mas por medo, timidez, ja fora tantaz outras vezes rejeitado e não queria ser outra vez, e ficou ali, inumerando razões para tal, mas sabia que cada uma daquelas razões não justificava tal silêncio, então no silêncio mesmo tentaria dizer, assim como ja o fazia em certos momentos, antes mesmo de perceber, as deixas que dava, as palavras que procurava.
Sem saber o que ou como dizer, esperava, rezava, para ela entender seu silêncio, suas palavras não ditas, seus olhos. Como tudo nesse momento se tornaria tão claro, tão óbvio, e talvez fosse este o sinal que esperava, o sinal de que ela tivesse entendido, o sinal de que ela ouvia os berros que emanavam de seu coração, e se fugiam por seus póros, e ali naquele sinal, o sinal de que sua entrega era completa, se entregaria de corpo e alma. Mas qual seria o sinal? Seu coração reconheceria? E ali junto com tudo carregado pelo vento, voaram suas memória e pensamentos, restando apenas a esperança, que enfim acendeu sua tocha, e tocou seu coração.
Ezequiel Dalfre (06/11/2007) 18:54